Produção repleta de clichês, tem muitos méritos, mas personagens de mentira traem a luta e a memória dos panteras negras de carne e osso

Por João Negrão

O filme Pantera Negra tem muitos méritos. O principal deles é o próprio personagem, um super-herói negro como protagonista, numa superprodução que suplanta a dos demais personagens da Marvel. Soma-se que quase todos do elenco e figurantes são negros, além de seu diretor e boa parte da equipe técnica. Temos uma história interessante, como o é o retrato de um país da África desenvolvido, tecnologicamente avançado, muito longe das cenas de outras produções que colocam os nativos em situação sempre inferior aos neocolonizadores e visitantes europeus.

Pantera Negra, por isto aí relacionado, é um filme que eleva a autoestima de nós negros e nos traz um orgulho forte. É um filme bonito visualmente, com a elegância estética das mulheres e homens, com figurinos exuberantes e uma trilha sonora impactante, em alguns momentos lembrando muito o som das baterias de nossas escolas de samba. Mas para tudo por aqui. O resto é um festival de clichês. E, pior, embute um libelo contra às lutas emancipacionistas dos negros e outros povos oprimidos.

Quanto aos clichês, vamos começar pela fotografia, quase uma cópia de Thor. Aliás, como enredo, há muito ali do herói nórdico e seus conflitos com pai e irmão, as traições intra-familiares e os combates. É como se a Marvel Studios tivesse uma forma pronta. Não tenho nada contra filme clichê, quando o que vale é a diversão pura e simples.

Pantera Negra, no entanto, vem sendo festejado como um filme emblemático para a luta anti-racista. Tenho minhas ressalvas. Falemos da sub-reptícia (e às vezes descancarada) contraposição à luta pela liberdade. Comecemos com a traição. Das muitas delas em Pantera Negra, uma que passa batido. E isto, para mim, é imperdoável a um filme que se apropria do nome de um dos maiores movimentos emancipacionistas dos negros no mundo.

Pantera Negra, o personagem da Marvel Comics, foi criado em 1966, mesmo ano em que se oficializou a fundação do Panteras Negras, o partido político norte-americano que reuniu negros (maioria) e brancos contra a cruel opressão que os afro-americanos sofriam, num regime de verdadeiro apartheid. O filme, em essência, trai essa memória dos Panteras Negras.

Já ali no seu início, Pantera Negra, o filme, mostra ao que veio no sentido político-ideológico: criminaliza e penaliza os Panteras Negras, o partido. E por todo o seu percurso, a produção criminalizará os ideais de libertação dos povos, inclusive africanos, mostrando seus personagens negros criminalizando, sendo omissos e combatendo as demais lutas, sob o embuste da luta anti-terrorista. Não há muito que se esperar de uma produção norte-americana em que os vilões – ou seja, aqueles que querem outro tipo de liberdade, que não a de seu capitalismo – são sempre terroristas.

Perdão pelo quase spolier

A sequência inicial do filme mostra o jovem Zuri – que depois seria o sacerdote de Wakanda e guia espiritual do futuro rei T’Challa – com N’Jobu, num clássico aparelho clandestino dos guerrilheiros panteras negras. Eles escondem as armas ante a suspeita da chegada da polícia. Mas quem chega é o irmão de N’Jolu, o rei T’Chaka (pai de T’Challa).

N’Jobu havia se apropriado (me recuso a dizer “roubado”) do poderoso vibranium, o metal que transformou Wakanda num país muito avançado tecnologicamente e permitiu a produção da armas superpoderosas. Fica aí explicito que N’Jobu quis as armas a base de vibranium para ajudar a guerrilha. Zuri era um espião e denuncia N’Jobu como traficante. Inconformado, N’Jobu investe contra Zuri. T’Chaka, ao proteger Zuri, mata o irmão.

O que se tornaria um dos maiores segredos do reino de Wakanda, acaba gerando uma guerra familiar, centro da trama da metade para o fim do filme, conduzida inicialmente pelos interesses – dos “bons” e dos “maus” – pelo poderoso mineral. É por aqui que entra em cena um certo Everett Ross, com sua inicialmente dúbia posição entre os mocinhos e bandidos, que vai elucidar outra faceta da traição de Pantera Negra à memória dos Panteras Negras.

Ross negocia com Ulysses Klaue – este, sim, terrorista – um machado feito de vibranium, roubado de um museu. O serviço secreto de Wakanda descobre sobre o roubo e designa o então príncipe T’Challa para, junto com Okoye, a chefe de suas guardas-costas, e Nakia, sua futura rainha, resgatar o artefato.

Memória traída

Na sequência seguinte, que se passa no cassino de uma cidade sul-coreana, T’Challa reconhece Ross como um ex-agente da CIA (a agência de inteligência norte-americana) e descobre que ele faria a troca com Klaue. Durante toda essa parte do filme não se sabe quais a reais pretensões de Ross e nem de que lado ele realmente está. Mas, ao ser ferido protegendo Nakia, Ross é levado para Wakanda, onde vira herói lutando ao lado de T’Challa contra Erik Killmonger, que tomou o poder no país ao derrotar o rei.

Todo este quase (?) spolier para lembrar que a CIA, ao lado da FBI (a polícia federal estadunidense) ajudou a destroçar a organização dos Panteras Negras, o partido, com ações de combate, diria, “convencionais” e outras cruéis, como se aliar aos narcotraficantes para viciar em drogas os jovens negros das periferias das cidades onde o movimento era mais organizado, corroendo assim a militância das gerações da época e futuras.

Para mim, é imperdoável que um filme chamado Pantera Negra, com as pretensões que sugere, transforme em herói o símbolo daquilo que foi a CIA no combate às lutas emancipacionistas dos negros de seu país e dos demais povos oprimidos pelo imperialismo norte-americano. Mas aí é eu querer demais de uma produção hollywoodiana, não é mesmo?

* João Negrão é jornalista e militante do movimento negro em Brasília.