Colegas e amigos respondem a meu texto anterior sobre o filme Pantera Negra e agregam excelentes pontos de vista que enriquecem o debate

Por João Negrão

Em poucas horas o meu texto sobre minhas impressões acerca do conteúdo político-ideológico do filme Pantera Negra gerou uma polêmica excelente. Minha inferência atentou para o que eu considero uma traição à luta e à memória dos Panteras Negras. Pontuei sequência da produção em que um “pantera negra” vira vilão, enquanto o símbolo de um dos opressores dos lutadores pela emancipação dos negros norte-americanos é transformado em herói.

Angariei posições pró e contra meu ponto de vista. Algumas delas me deixaram transparecer que eu descarto assistirem ao filme. Muito pelo contrário. É importante assisti-lo. No texto anterior eu inicio falando dos méritos da obra:

“O filme Pantera Negra tem muitos méritos. O principal deles é o próprio personagem, um super-herói negro como protagonista, numa superprodução que suplanta a dos demais personagens da Marvel. Soma-se que quase todos do elenco e figurantes são negros, além de seu diretor e boa parte da equipe técnica. Temos uma história interessante, como o é o retrato de um país da África desenvolvido, tecnologicamente avançado, muito longe das cenas de outras produções que colocam os nativos em situação sempre inferior aos neocolonizadores e visitantes europeus.

Pantera Negra, por isto aí relacionado, é um filme que eleva a autoestima de nós negros e nos traz um orgulho forte. É um filme bonito visualmente, com a elegância estética das mulheres e homens, com figurinos exuberantes e uma trilha sonora impactante, em alguns momentos lembrando muito o som das baterias de nossas escolas de samba.”

Agradeço aos que concordaram comigo, mas me instigaram as discordâncias, algumas diretas ou não. Abaixo eu selecionei algumas delas.

‘Protagonismo das mulheres’

A jornalista Leonor Costa, por exemplo, publicou em seu perfil no Facebook um texto excelente em que pontua suas impressões sobre o filme e conclama no final: “Não deixem de assistir, por favor!”. Expõe suas críticas em relação ao conteúdo político-ideológico, mas alerta que “o filme ganha demais em outros aspectos” e aponta “o protagonismo das mulheres” como um deles.

Confira a opinião da jornalista Leonor Costa:

“Ontem, finalmente, assiste ao filme Pantera Negra. Achei muito bom e até agora estou impressionada com a força daquelas mulheres. Por isso mesmo, vou fazer algumas considerações. Senta que lá vem textão!

– Acho super pertinentes as avaliações sobre o papel do N’Jadaka, primo de T’Chala, pelo fato de ser ele exatamente o vilão que propõe que Wakanda use de seu poder e riqueza para mudar a sociedade. É exatamente ele que questiona o sistema e a opressão de raça. E logo ele é o vilão da história.

– Reconheço que esse é um problema no filme. Eu comentei com Marcos Urupá, quando saímos do cinema ainda tentando entender, que a relação do primo com o jovem rei seria algo como a disputa de tática entre MalcomX e Martin Luther King. Claro que numa comparação um pouco forçada, mas considerando que os dois tinham divergências cruciais sobre como conduzir a luta do povo negro naquele período nos Estados Unidos.

– O filme é marcado pela disputa entre o jovem vilão, que na infância fora abandonado depois do assassinato do pai na periferia da Califórnia, que, a despeito da sua revolta resultado das condições materiais em que cresceu, é quem propõe saídas mais radicalizadas, inclusive para ajudar aqueles que saíram de Wakanda (África) para outros países, e o herói, que diz explicitamente que sua preocupação era somente com o povo de Wakanda e que o resto do mundo não lhe dizia respeito. Entendimento, inclusive, questionado pela sua namorada, a personagem de Lupita Nyong’o.

– Mas acho que o filme ganha demais em outros aspectos. Para mim o maior deles é o protagonismo das mulheres. Elas são fundamentais para a condução e o desfecho da batalha. Todas elas. E me parece que isso foi uma grande preocupação do diretor. Porque todas são muito fodas. As melhores cenas alternam entre a guerreira, a personagem da Lupita e a irmã do príncipe, sempre em cenas importantíssimas do enredo. E isso é fascinante, porque elas são maravilhosas.

– Algumas frases mais sarcásticas são ditas por essas mulheres, como a irmã de T’Chala, que diz: mais um branco pra gente curar. Ou então quando a general guerreira se refere ao mesmo branco norte americano da CIA como colonizador, demonstrando total falta de confiança.

– Além disso, com todos problemas do personagem do primo vilão, a fala final dele é muito foda, quando ele escolhe voltar para o mar, como seus ancestrais, do que viver numa prisão, se referindo à escravidão. E pede pra ser jogado no mar. Isso é de um simbolismo foda: eu prefiro morrer lutando, a ser escravizado.

– Por fim, a minha vontade é dizer pra geral: deixem nós, pessoas negras que quase não têm herói entre os super-heróis dos quadrinhos, ficar feliz como crianças com um herói e várias heroínas negros como nós. Pra mim essa é a grande questão do filme. E olha que sou daquelas “pessoas de esquerda” que defendem que não há saída dentro do capitalismo. Que somente uma nova sociedade será capaz de nos libertar de todas as opressões. Mas aí é outro papo, que acho demais querer que um filme da Marvel/Disney dê conta.

– Não deixem de assistir, por favor!”

‘É pesado para negros darem conta de todas as lutas’

A escritora Cida Chagas considera que “o fato do filme provocar todo esse debate é por aquilo que ele abre portas”.

Confira a opinião de Cida Chagas:

“Oi, João
Gostei do filme. As minhas crianças também adoraram.
É um filme de heróis como todo e qualquer filme da Marvel, DC ou de qaulquer outra grande detentora de direitos.
Que bom que você apresentou o lado positivo do filme.
Mas, o fato do filme provocar todo esse debate é por aquilo que ele abre as portas. Mas, também não é um filme que surge no vácuo. Muitas coisas vieram em Hollywood antes para se chegar ao Pantera Negra.
Acho que deveríamos tratar o filme como é. Não um filme de reflexão ou de denúncia. O que ele tem, resgatou um herói da década de 80 onde há um monte de atores negros e atrizes negras atuando, inclusive com a direção de um negro. E a ressaltar com um orçamento que não deixa a dever para nenhum outro filme de herói ou qualquer outro blockbuster.
Às fica muito pesado para as pessoas negras terem que dar conta de todas as lutas.
Vc vai ver no quinto filme que Hollywood fizer dessa forma, ninguém vai mais problematizar sobre filmes com negros.
Será tudo tão normal como qq outro filme com pessoas negras.
Aí chegaremos onde queríamos. Sermos tão normais que seremos e estaremos onde quisermos. Assim, como os brancos que não precisam dar conta de tudo e de todos.”

‘Bora fazer um debate coletivo?’

O ativista Andrey Lemos, presidente da UnaLGBT (União Nacional de LGBTTs) discordou de minha opinião e sugeriu um debate sobre o filme:

“Discordo e recomendo assistir, não podemos esperar que a Marvel seja completamente fiel a nossa luta, mas na trama tem fortes elementos da nossa ancestralidade e trajetória, por isso precisamos assistir e bora fazer um debate coletivo?”

‘Pró-empoderamento dos negros’

O jornalista, poeta e escritor Antonio Pacheco considera Pantera Negra “um filmaço, tanto no que é de fato quanto no que pode ser traduzido simbolicamente” e me cutuca: “Em vez de reclamar do que o filme poderia ter sido, usemo-lo como o que ele é em prol da causa: um panfleto que impõe aos racistas e imperialistas brancos uma mínima reflexão sobre a humanidade, poder e força reprimida das populações africanas e afrodescendentes”.

Confira o texto de Antonio Pacheco:

Caro João, sua leitura do filme ‘escorrega’ exatamente ao querer que o mesmo fosse um libelo nostálgico ao movimento político emancipacionista dos Panteras Negras. Essa não é e nunca seria pauta em qualquer blockbuster hollywoodiano. Este anseio por um cinema politizado e isento norte-americano, na verdade, acaba por turvar sua análise e não o deixa perceber (ou você se recusa a fazê-lo) aquilo que o filme realmente é e tem de positivo: um excelente, talvez o melhor e mais impactante panfleto pró-empoderamento dos negros na contemporaneidade. T’Challa e seu reino de Wakanda é o mundo idealizado por todo militante afro planeta afora: rico, tecnologicamente desenvolvido, soberano, orgulhoso de suas tradições e cultura, ultrapoderoso e humilde. No entanto, realista até no regime de governo local, o monarquista (pai do presidencialismo ocidental) e na divisão de classes com nobres e militares no topo das belas e ricas torres e o resto do povo no rés do chão. Pantera Negra é um filmaço, tanto no que é de fato quanto no que pode ser traduzido simbolicamente. Em vez de reclamar do que o filme poderia ter sido, usemo-lo como o que ele é em prol da causa: um panfleto que impõe aos racistas e imperialistas brancos uma mínima reflexão sobre a humanidade, poder e força reprimida das populações africanas e afrodescendentes. Façamos nós mesmos, aqui no chão das favelas, guetos e bairros suburbanos em que habitamos, a nossa Wakanda real.