Por Huffpost Brasil  

Há uma razão pela qual líderes antidemocráticos normalmente perseguem escritores e proíbem a literatura: os livros têm o poder de minar normas nocivas, construções sociais prejudiciais e governos opressores.

Ainda mais poderosos do que os livros são os clubes de livros e grupos de leitura. Quando a resistência está em movimento, os clubes de livros estão frequentemente fervilhando. Os clubes de livros podem não só ajudar membros politicamente inflamados a se motivar, e uns aos outros, a ler livros relevantes — 1984O Conto da AiaO Capital no Século XXI, de Thomas Piketty —, como também é uma razão sob medida para que amigos se reúnam e falem sobre as ansiedades e ideias da jornada.

Então faz sentido que, como relatou Ruth Graham em um artigo na revista Slate, a eleição de Donald J. Trump para presidente dos Estados Unidos tenha galvanizado os clubes de livros. A mãe de Graham e a colega de sua mãe (a grande maioria dos associados de clubes é formada por mulheres e com mais de 45 anos) afirmaram que estão lendo ou prestando mais atenção nas opções políticas nos últimos meses, como The Underground Railroad, de Colson Whitehead, e Hillbilly Elegy, de J.D. Vance. Além disso, notou Graham, há uma série de novos clubes de livros explicitamente políticos, alguns on-line e outros presenciais.

Assim como as redes sociais, que enfatizam a troca de ideias, os clubes de livros sempre tiveram um lado cívico. “Junto”, famoso clube do livro de Benjamin Franklin fundado em 1727, reuniu homens para falar sobre negócios, literatura, filosofia e política. Como muitos clubes que se seguiram, incluindo os clubes de mulheres, “Junto” permitiu que os associados complementassem a falta de educação formal. Para aqueles de origem humilde (como Franklin) ou de origens não privilegiadas, os grupos de leitura eram uma avenida ideal para o aprendizado. Os escravos eram impedidos de ler, mas homens e mulheres libertos nos estados do norte dos EUA formaram grupos de discussão de literatura com propósitos semelhantes. O grupo de Franklin acabou se tornando uma força motriz por trás de projetos cívicos, como a primeira biblioteca pública para empréstimos de livros e um departamento de bombeiros para voluntários.

Os clubes de livros de mulheres, em particular, têm uma história de subversão. Até muito recentemente, mulheres que se reuniam para comentar livros eram vistas com desconfiança, e não como tontas e autoindulgentes. Falar sobre ideias era da alçada dos homens, assim como educação superior e política. Em uma época bem longínqua, na década de 1630, Anne Hutchinson tinha um grupo de estudos da Bíblia para mulheres em sua casa, no qual ela e outras senhoras podiam continuar falando sobre a Escritura depois do sermão do pastor. O grupo cresceu tão rapidamente que, às vezes, Hutchinson organizava encontros para os quais os homens eram convidados. Em pouco tempo, o poder puritano começou a desconfiar de sua popular reunião e das discussões teológicas organizadas ali; em 1638, Hutchinson foi banida por promulgar uma doutrina herética. Em seu julgamento, o governador John Winthrop a acusou de organizar “um encontro e assembleia em sua casa que foram condenados pela assembleia geral como algo não tolerável nem agradável aos olhos de Deus e não adequado ao seu gênero”.

Os grupos de progresso político e cívico das mulheres, mais notadamente os grupos de conscientização popularizados pela segunda onda feminista, seguiram a mesma tradição dos grupos de leitura. Normalmente, não havia uma distinção clara. As mulheres estavam não só buscando uma educação subversiva em si por séculos, mas falar sobre ideias muitas vezes levava as mulheres a agir com base nelas e falar publicamente sobre seus ideais.

Feminismo, por exemplo. Em 1839, a diretora de um internato de meninas em New Hampshire enviou uma circular convocando alunas e ex-alunas a ler e escrever juntas, não apenas para seu próprio avanço, mas também “para a elevação de nosso sexo universalmente”. (Sarah Sleeper, a diretora em questão, também exortou as mulheres a servir como missionárias protestantes a fim de salvar “as pagãs”, então era meio que uma salada russa).

Grupos de conscientização promovidos pela segunda onda feminista, segundo destacado pelo site Broadly, seguiam clubes de livros em sua estrutura: um grupo de mulheres que se encontrava regularmente para compartilhar ideias sobre determinados tópicos. Mas a distinção é mais cosmética do que qualquer outra coisa. Os grupos de conscientização deram explicitamente às mulheres a oportunidade de se livrar das responsabilidades domésticas, avaliar suas vidas e discutir experiências e ideias compartilhadas; o clube de livros moderno — normalmente visto como uma desculpa para que donas de casa tomassem vinho e desabafassem sobre seus casamentos — faz o mesmo, independentemente se a conversa permanece focada no tópico principal. As mulheres, afinal, ainda fazem a maior parte do trabalho doméstico — especialmente as mais velhas, de gerações mais tradicionais. Uma escapada livre de culpas para um clube de livros, onde ela possa focar em seus próprios pensamentos por uma hora ou duas, pode ser particularmente interessante para o gênero com cinco horas a menos de lazer por semana.

Por muito tempo, clubes de livros e chás da tarde ofereceram espaço para o vínculo feminino, autoeducação e mesmo para a organização política que os homens brancos, com seu seguro controle sobre o voto e posições de poder político e corporativo, não precisavam. Mas, como as mulheres escaparam de seus confinamentos domésticos para os encontros dos clubes de livros, o estigma feminino brotou. Hoje, muitos homens relutam em participar de clubes de livros porque eles são, você sabe, para meninas — embora alguns clubes agressivamente masculinos tenham sido lançados para atrair os machões.

Enquanto ridicularizávamos as mulheres por suas reuniões com livros de bolso e bolo de café, elas estavam construindo redes maduras para a conversa política e ação social.

Além disso, manter um clube de livros em funcionamento dá trabalho, o tipo de tarefa administrativa humilde cuja execução sempre foi esperada das mulheres. Embora alguns clubes de livros façam reuniões em lugares públicos, muitas são realizadas por associados em suas casas. As pessoas trazem patê caseiro, brownies e garrafas de vinho. Fazem a leitura esperada. O clube é mantido pelo serviço mútuo dos associados, pela subordinação de seus caprichos às necessidades do grupo. Qualquer mulher que tenha notado que homens nunca organizam as festas de aniversário ou que seu marido nunca é o que se lembra das consultas ao dentista dos filhos saberá que um gênero foi condicionado muito mais eficazmente a desempenhar essas funções. As mulheres, aparentemente, se tornam as diretoras sociais em suas casas: pesquisas mostram que elas mantêm uma rede de apoio maior e são menos afetadas pela perda de um esposo.

O clube do livro funciona com um tipo de ‘networking’ social que as mulheres há muito tempo fazem em apoio aos homens — receber o chefe do marido para o jantar e depois deixá-los sozinhos para falar sobre coisas sérias bebendo scotch e fumando charuto depois da refeição, para citar um exemplo muito típico dos anos 50 —, embora mulheres da classe alta, como as anfitriãs aristocráticas dos salões parisienses, pudessem impingir esse trabalho aos criados. É um tipo de trabalho que se parece muito com a organização política de base: sem recompensa, dedicado e mais eficaz quando conecta pessoas e espalha ideias.

Os clubes de livros têm sido marcados por vaivéns entre ações políticas abertas e engajamento cívico mais sutil por séculos, por isso, a resistência progressista a Trump é apenas o mais recente exemplo de um afloramento político, com clubes de resistência surgindo por toda parte. Graham destacou o novo clube do livro lançado pelo Daily Action, uma rede de resistência em mensagens de texto; clubes presenciais organizados por livrarias e grupos Meetup também se expandem.

Mas uma coisa é clara: as mulheres — especialmente as mais velhas e negras — sabem como criar comunidades, literárias e políticas. E, para que não nos esqueçamos, foi Oprah quem lançou o maior clube do livro já visto. Outros novos clubes de livros relevantes — Well-Read Black Girl, focado em mulheres negras; o clube feminista de Emma Watson, Our Shared Shelf; o Book Club 2.0, de Oprah — foram criados por mulheres para explorar a curiosidade e intelecto feminino. Movimentos ativistas fizeram o mesmo. O movimento The Black Lives Matter (As Vidas dos Negros Importam), liderado principalmente por mulheres negras, invadiu a consciência pública bem antes da presidência de Trump parecer possível. A Marcha das Mulheres foi considerado o maior protesto realizado em um dia na história dos Estados Unidos. E enquanto isso, como Graham relata na revista Slate, mulheres em todo o país estão lendo livros para ajudá-las a entender nosso momento político e discutindo-os juntas.

Enquanto ridicularizávamos as mulheres por suas reuniões com livros de bolso e bolo de café, elas estavam construindo redes maduras para a conversa política e ação social. O resto de nós está começando do zero.