Por Bruno Santos, para Observatório da Ética Jornalística de Meto Grosso 

Rumores e mentiras espalhadas sem nem um teor de verdade causam grandes estragos.  Isso vindo de todos os meios, no senso comum e bem popular das redes sociais e seguido das fake News, torna-se algo mais estruturado. Isso acaba nos trazendo exemplos de casos em que a morte é o resultado final.

Um deles foi reproduzido no dia 26 de maio de 2017 pelo “Olhar Digital”e se referiu a uma notícia que deixa muitos de nós, estudantes e profissionais da comunicação, preocupados com a relação entre a verdade e a mentira. Trata-se da morte de sete pessoas no estado de Jharkhand, na Índia, causada por boatos transmitidos e retransmitidos pelo WhatsApp 

O erro não está no site que publicou (a notícia foi reproduzida do Hindustantime e sim no fato ocorrido). Que fique claro: não defendo os meios de comunicação de massa, mas antes de ser veiculado esse tipo de material eles pensariam e pesquisariam. Pelo aspecto negativo, os meios sofreriam com a perda de sua credibilidade e poderiam até perder o patrocínio de verbas públicas, além de passarem por sanções legais.

Temos exemplos no Brasil também. Há algumas semanas a maioria das emissoras brasileiras, com medo de perder as verbas públicas do governo Michel Temer, deixaram de transmitir um manifesto contra as reformas Trabalhista e da Previdência. No exato momento em que a polícia estava atacando os manifestantes e vice-versa nada foi ao ar a não ser os vídeos que os participantes do protesto fizeram. 

Já quanto à rede social em questão aqui, o WhatsApp, a ética é um quesito que fica de fora. Ainda mais quando nesse meio não existe nenhum tipo de barreira profissional de um jornalista ou um outro profissional da comunicação. Os boatos se espalham sem comprovação das fontes.

A verdade no relato dos fatos

Luciene Tófoli, em seu livro “Ética no jornalismo” (2008), analisa a verdade como um ponto crucial da profissão. A jornalista e pesquisadora ressalta a importância do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros e ao fazê-lo chama a atenção, entre outros parágrafos, para o 4º: “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação”.

O senso comum hoje é o critério de noticiabilidade. A verdade é deixada em segundo plano, sem interesse comercial, neste caso feito apenas para grupos se sentirem incluídos na sociedade de consumo. Com a internet, a vontade de ser jornalista sem formação se potencializou. Tudo é motivo de publicação e veiculação. Diante dessa sociedade de consumo e antes mesmo do boom da rede mundial de computador, a jornalista e pesquisadora Cremilda Medina já efetuava uma forte crítica a partir de um olhar marxista. No livro “Notícia, um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial (1988)”, a autora menciona que a produção jornalística faz parte de um  complexo mercantil que fabrica produtos de consumo da indústria cultural.

Os interesses

 Tófoli (2008, p. 29),  enfocando sua preocupação em enumerar alguns interesses que formam uma pirâmide na produção da notícia, o que se pode perceber na “notícia” falsa espalhada pelo WhatsApp na Índia. Trata-se, entre outros, da importância das consequências, o interesse humano pelo assunto, seu ineditismo, aspectos de rivalidade, utilidade social e entretenimento. Vários desses aspectos podem ser usados para analisar esse acontecimento.  Todos ligados por um laço de pertencimento cultural.

 A autora (2008, p. 49), destaca que desde a antiguidade, tomando-a no sentido mais amplo, de novidade e de algo de interesse público ou de grupos sociais, a notícia tem sido uma forma de transmitir experiências isto é, “a articulação simbólica que transporta a consciência do fato a quem não o presenciou”. Analisando o fato em discussão como proveniente de boatos, já que de acordo com o delegado superintendente da região, Aminesh Naithany, “nem um único caso de sequestro de crianças foi reportado na área”, algo que não aconteceu não podia ter sido espalhado, mas articulação simbólica já estava sendo vinculada ao mesmo tempo e que corria a “notícia” falsa.

Afinal, o que é notícia?

Nesse rede complexa de informações, é importante recordar as palavras do jornalista e pesquisador Nilson Lage (2001, p. 54), para quem notícia  é um “ Relato de uma série de fatos a partir de um fato mais importante, e este, de seu aspecto mais importante”.  Se não nos atentarmos ao parâmetro dado por Lage, palavras como “importante” perdem seus valores abstratos, como o de verdade e o de interesse humano.

O autor complementa, dizendo que “a notícia se constitui de dois componentes básicos: o logico e o ideológico. O primeiro se caracteriza por um saber submetido a preceitos das teorias comunicativas. Já o segundo abriga critérios de valores que podem mudar com o tempo”. A partir dessa conceituação podemos entender o fato em si. Portanto, se as pessoas tivessem o mínimo de entendimento do que é notícia, tentariam amenizar esse tipo de boato e começariam a se ater a um pensamento mais lógico

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia