Por João Negrão, Artur Ribeiro, Dinah Andreia e Jessica Dantas

A Polícia Militar do Distrito Federal pode fazer o que quiser no espaço da Universidade de Brasília. Desde invadir áreas privadas dos estudantes, como uma sala onde os discentes negros exercem sua convivência diária com base nos ritos dos seus antepassados, abordar alunos em qualquer estabelecimento universitário e até prender quem estiver nas áreas públicas do campus. Estabeleceu-se um ali um ambiente só comparado aos momentos em que as tropas do Exército a invadiram oito vezes para reprimir os estudantes revoltados com uma ditadura que estava levando o país ao obscurantismo. A pior delas foi em 29 de agosto de 1968. Exageros à parte, o fato é que a pretexto de combater a “violência”, o consumo de drogas e “comportamentos não adequados”, a PM do DF circula livremente no campus principal da Universidade. Prende e arrebenta.

A reportagem esteve lá na última quinta-feira (27) e encontrou um clima de medo. A princípio nenhum estudante quis se manifestar. Fomos depois que alunos da UnB informaram que paredes, pilastras e outras partes de edificações da universidade onde havia pichações e grafites estavam sendo apagados com tinta cinza pela Prefeitura do Campus. Imediatamente a ação remeteu à inevitável comparação com as medidas tomadas pelo prefeito de São Paulo, João Dória, nos primeiros dias de seu governo à frente da capital paulista. Irremediavelmente a reitora Márcia Abrahão Moura foi apelidada de “Márcia Dória”. Encontramos as paredes e colunas pintadas de cinza justamente com algumas destas inscrições.

Confira o relato de um dos alunos:

“Após a ação da Polícia Civil na UnB, que descobriu uma plantação de maconha que era mantida por estudantes no campus Darcy Ribeiro, a presença da polícia e a relação da reitoria com a mesma mudou.

Nos seus primeiros meses de mandato a reitora Márcia Abrahão já encontra grandes dificuldades. Um assunto muito complicado de ser tratado na universidade são as drogas. Sabemos que existe uma cultura diferente do resto do país na UnB.

Alguns dias depois o acontecimento da plantação, a faculdade amanheceu com funcionários pintando todas as pichações, grafites, desenhos ou qualquer outro tipo de expressão que existiam nas paredes da UnB. Existiam diversas expressões e protestos nas paredes que foram cobertas pelo cinza, rapidamente os alunos perceberam o ato e o assunto se espalhou.

O delegado que comandou a ação no campus, disse que existe uma leniência histórica dentro do ambiente acadêmico da UnB em relação as drogas, como exemplo citou as pichações, que segundo ele tinham apologia as drogas. Também disse o delegado: “Quero crer que a atual reitoria eliminará essas influências negativas”.

Com a sequência de fatos ocorridos é difícil ignorar uma possível relação do ato de cobrir as pichações com a ação da polícia no campus, uma possível influência da polícia nas ações da reitoria preocupa estudantes, sabemos que a relação polícia-estudantes nunca foi agradável.”

Clima de perseguição

Um giro pelos corredores do Instituto Central de Ciências (ICC), o famoso “Minhocão”. Chegamos pelo ICC Norte, a parte onde fica o Kilombo e o Diretório Central dos Estudantes (DCE). O Kilombo é o espaço de convivência dos estudantes negros, a maioria cotistas raciais. Ali eles buscam reproduzir o ambiente dos antepassados, estabelecem troca de experiências e organizam suas atividades, além de repousarem. O local é visto com reservas pelos preconceituosos. E a polícia o tem como alvo preferencial. Segundo uma estudante que preferiu não se identificar, a decisão da Reitoria de reprimir as manifestações via pichações e grafites endurece o clima de perseguição na universidade. “A Reitoria reforça a posição da polícia de que aqui fazemos apologia às drogas. É isto que está disseminado, criando o medo entre os estudantes”, afirmou. Relatos dão conta que a Polícia Militar invadiu o Kilombo na quinta (27), revistou e prendeu um dos estudantes, que estaria portando maconha.

No DCE, outro espaço onde também se exercita a tradicional convivência universitária, encontramos quatro estudantes: dois rapazes e duas moças, todos do colegiado dirigente da entidade. As meninas aceitaram falar com a reportagem. Uma na condição de anonimato. Ela confirmou que as pinturas das pichações estão reforçando este clima “cinzento” na UnB. “Estão reprimindo a livre manifestação dos estudantes. Não se trata de apologia às drogas. Nem isto é que está sendo contestado, mas sim a nossa liberdade de nos expressar como jovens, nossos desejos, nossas angustias e posições diante das coisas do mundo”, afirmou ela, ressaltando que os LGBTs, assim como os negros e pessoal de esquerda vem sofrendo perseguição nos últimos tempos.

Tudo teria começado na gestão do antigo reitor da UnB, Ivan Camargo, que assinou uma resolução que permitiu à Polícia Militar do DF agir livremente, sendo convocada pela Prefeitura da Universidade. Segundo um funcionário da Reitoria, que também preferiu não se identificar, a atual gestão universitária não apenas não revogou, como reforçou “os laços com a repressão”. “Votamos na atual reitora com a esperança de que as coisas fossem modificadas. Mas estamos vendo que ela não teve vontade de acabar com este absurdo”, afirmou. A outra estudante, Mariana Paiva, do curso de Engenharia, membro da coordenação do DCE, disse que o que a Prefeitura do campus promove é “a higienização do ICC” e que a Reitoria não gera debate sobre questões como a das drogas, que tem dinâmicas diferentes no espaço universitário e na sociedade. “O tratamento dado pela Reitoria sobre este tema não leva em conta as diferenças que existem entre o espaço universitário e a sociedade como um todo. É preciso aprofundar este debate e não se render puramente à repressão”, evocou.

Hélio Barreto, da coordenação geral do DCE, considera que a reitora Marcia Abrahão não teve coragem de romper com mecanismos repressivos implementados pelo seu antecessor e sugere que ela não tenha controle sobre métodos da Segurança e da Prefeitura do campus. “A segurança tem total autonomia para chamar a Polícia Militar quando bem entender e não dá satisfação a ninguém. Ao mesmo tempo em que sinaliza contrária ao acordo com seu antecessor, ela [a reitora] deixa claro que o protocolo é este e que as pessoas devem ter tranquilidade para conviver com ele. E dessa forma se esquece que ações policiais dentro do ambiente universitário são sempre problemáticas”, explica Barreto. (Confira a entrevista dele completa logo abaixo)

55 anos da UnB

IMG_6337Ainda na quinta-feira (27), antes de vir à tona a invasão da PM, a assessoria de imprensa da UnB designou o chefe de Gabinete de Márcia Abrahão, Paulo Cesar Marques da Silva, para se pronunciar sobre a pintura das pichações e grafites. Marques da Silva negou que a iniciativa da Prefeitura do Campus teria sido motivada por imposição da polícia. “A Prefeitura zela pela conservação das dependências da Universidade e inclui em suas rotinas a limpeza de paredes, muros etc. É importante destacar que não houve qualquer espécie de seleção de conteúdo ou autores que deviam ter suas manifestações apagadas. Houve, sim, uma prioridade para os locais que estavam mais afetados pelas pichações na semana de comemoração dos 55 anos da UnB”, afirmou, em entrevista via e-mail. (Confira a íntegra logo abaixo).

“Nota da Reitoria da UnB

À Comunidade Universitária da UnB

Tomei conhecimento de que, na noite da última quinta-feira (27), a segurança da UnB pediu a presença de policiais do pelotão ciclístico da Polícia Militar no ICC, após a recusa de algumas pessoas de se identificarem aos funcionários. Essa recusa está em desacordo com o inciso VII do art. 7o. da Resolução n. 01/2012 do Consuni (“É facultado às autoridades e à segurança da UnB solicitar identificação de qualquer pessoa que esteja nas dependências dos seus campi universitários”).

Segundo nos informou a segurança da UnB, os policiais abordaram e revistaram cinco pessoas. Na mochila de uma delas – então identificada – estudante, foram encontradas porções de drogas ilícitas, o que levou à condução do mesmo à 5a. DP, de onde foi liberado após assinar o devido termo.

É lamentável que ocorrências dessa natureza tenham tido lugar nas dependências da Universidade de Brasília. A Administração vai adotar as providências necessárias para a apuração de todos os fatos, assim como das motivações e circunstâncias a eles relacionadas.

Brasília, 28 de abril de 2017

Profa. Márcia Abrahão Moura”

A nota da reitora deixa claro que ela não teve conhecimento prévio das iniciativas da segurança do campus e não esclarece o que ela considera “lamentáveis”, se é o direito de pessoas de não apresentar identificação no espaço público, alçadas à condição prévia de suspeitas pela segurança; se é a medida adotada pela segurança de acionar a PM; ou se é a ação da própria PM. Indagado pela reportagem sobre a ação da polícia, o chefe de Gabinete da reitora Márcia Abrahão se limitou a enviar a nota acima.

‘Falta por parte da Reitoria diálogo sincero com o corpo estudantil’

Confira abaixo a entrevista com Hélio Barreto, da coordenação geral do DCE da UnB:

Qual a opinião do DCE sobre essas pinturas que estão sendo feitas pela reitoria?

O questionamento que a gente faz é, sabendo assim do cenário de 47% de corte no orçamento da universidade, por que a Reitoria considera prioritário gastar dinheiro pintando a universidade por conta de pichações e demais manifestações artísticas, que os próprios estudantes fazem? Temos visto a universidade sofrer com a falta de verba e vários estudos e departamentos funcionando muito ruins e assim é o questionamento que deixamos para a Reitoria: por que a prioridade da universidade é repintar os locais que receberam algum tipo de pichação, ou qualquer tipo de manifestação, ao invés de utilizar esse dinheiro para coisas mais importantes relacionados ao funcionamento da universidade? E ao mesmo tempo queremos questionar: por que não existe nenhum tipo de diálogo entre a reitoria e os estudantes para discutir como se pode aproveitar o espaço físico da universidade? Por exemplo, os estudantes do Instituto de Artes não têm nenhum tipo de abertura dentro da universidade para expor seus trabalhos, para fazer manifestações artísticas e é um tipo de atitude que vem sendo um diálogo com o corpo estudantil. Então, são esses dois questionamentos, porque esses espaços não são abertos para a gente, e porque a prioridade financeira frente a um corte de 47% é pintar e repintar a universidade que com certeza vai ser pichada novamente, ao invés de utilizar esse dinheiro em áreas que estão precisando bem mais.

A alegação de apologia às drogas é verdadeira?

Bom, não negamos que existem pichações na universidade relacionadas a isso, mas dizer que é o único tema abordado na parede da universidade não é verdade. É um dos. E acho também que não cabe ao DCE decidir se isso está certo ou errado nas perspectivas dos estudantes que foram lá e escreveram. Os estudantes utilizam as paredes da universidade para falar sobre vários temas, desde política, a várias outras questões, e o que a gente tem que discutir não é se os estudantes estão certo ou errados no conteúdo, mas é a pratica da reitoria em relação ao direito do estudante se expressar, e o compromisso da universidade em assegurar a expressão ou não.

Você não acha que essa questão das drogas merecia um debate mais sério por parte da universidade?

Eu acho que sim, e um debate que fosse franco entre a administração e os estudantes, não só a Reitoria lançaria uma nota dizendo que vai proibir veemente o uso, porque simplesmente jogar isso dessa maneira não resolve a questão com os estudantes. Acho que falta por parte da Reitoria, e o que vem faltando desde a antiga gestão, é um diálogo sincero com o corpo estudantil através do DCE e dos centros acadêmicos, para discutir essa questão na universidade e tentar resolver o problema de maneira coletiva com os próprios estudantes e não simplesmente uma resolução de cima para baixo de ameaça, pois os estudantes estão se sentindo ameaçados com última posição da Reitoria frente a isso.

Houve mesmo esta submissão da Reitoria a um delegado de polícia?

Bom, a gente não tem informações concretas sobre como foi a situação desde que acharam a plantação no Centro Olímpico; não temos nenhuma informação concreta sobre isso. Mas, sabemos que existe essa relação da própria administração da universidade com a polícia, de tentar resolver o problema. E a gente acha que o primeiro órgão que a Reitoria tem que procurar para responder esse tipo de problema não é a polícia militar e, sim, os próprios estudantes. Porque sabemos que a universidade é uma comunidade diferenciada e que precisamos se entender aqui dentro.

Você não que se abre um precedente perigoso transformar esta situação em caso de polícia?

Acho muito perigoso, porque a Policia Militar, querendo ou não, ela tem um modo de ação que é muito prejudicial à universidade, na nossa avaliação. Até porque temos aqui na comunidade universitária jovens de todos os lugares, de todas as idades, as mais variadas categorias sociais e valores. E a Policia Militar mostra que não tem o que é necessário para lidar com essa comunidade no dia-a-dia, no cotidiano, dentro da universidade. Então, acho complicado, sim, a primeira resposta da administração ser trazer a Polícia para a universidade. Acho que tem que ter aqui dentro é uma política de diálogo da administração com o setor estudantil ao invés de um diálogo direto com a Policia que já mostrou para gente em outros casos que não é preparada para lidar com estudante universitário.

De certa forma isso não quebraria um pouco a autonomia da universidade?

Com certeza, da gente discutir quais são as regras da nossa convivência, obvio que dentro do marco da lei, do funcionamento da universidade, da gente puder discutir entre nós, entre a administração, professores, servidores, estudantes, qual melhor maneira de tocar a universidade que desrespeita as relações comunitárias. Acho que envolver a Polícia Militar ou inclusive outros órgãos do Governo Federal ou do Governo do Distrito Federal, é quebrar nossa autonomia de poder dizer como a universidade tem que ser pensada em sua relação comunitária.

Vocês tentaram algum diálogo com a reitoria?
(Nota da Editoria: poucas horas antes de esta matéria ser editada estava acontecendo uma reunião da comunidade universitária. Traremos o resultado em futura atualização ou em nova matéria.)

A gente procurou a Reitoria e estamos tentando marcar uma reunião para discutir essa questão, e para fazer esses questionamentos que eu coloquei, mas ainda estamos esbarrando no tempo, na agenda da Reitora. Mas vamos ver se até semana que vem a gente consegue sentar para ter uma conversa sincera sobre essas questões. Porque são questões relacionadas diretamente aos estudantes. Querendo ou não, temos um universo de 50 mil pessoas na universidade, onde 40 mil são estudantes de graduação. Então, se tem um setor que é diretamente afetado por essas decisões, das políticas universitárias, somos nós, que passamos o dia inteiro aqui, que dependemos desse lugar, muitos de nós para comer, para morar, para viver, temos que ter priorização na hora de definir, o que vai ser feito, o que vai ser discutido. O grande pedido que a gente faz para a Reitoria, a grande exposição que a gente apresenta enquanto o Diretório Central dos Estudantes, é de estar presente para discutir essas questões enquanto estudantes. A gente não quer mais, a gente já sofreu muito com isso no último período, de uma Reitoria que não tolerava discussão com os estudantes, com os centros acadêmicos, e é isso que a gente acha que precisa ser mudado para que a universidade possa caminhar rumo a resoluções que contemple todos os lados e que seja uma comunidade acadêmica saudável para todos nós.

‘Não houve ingerência externa’

Entrevista com Paulo Cesar Marques da Silva, chefe de Gabinete da reitora Márcia Abrahão:

Por que a Reitoria resolveu apagar as pichações e grafites?

A Prefeitura zela pela conservação das dependências da Universidade e inclui em suas rotinas a limpeza de paredes, muros etc. É importante destacar que não houve qualquer espécie de seleção de conteúdos ou autores que deviam ter suas manifestações apagadas. Houve, sim, uma prioridade para os locais que estavam mais afetados pelas pichações na semana de comemoração dos 55 anos da UnB.

É verdade que foi uma imposição do delegado que investigou o caso da plantação na área da UnB? Esta não seria uma interferência policial na Universidade e não feriria sua autonomia?

Não é verdade. A atividade de conservação teve unicamente as motivações que já mencionei na primeira resposta. Repito que não houve qualquer ingerência da Polícia Civil ou de qualquer órgão externo à UnB nessa atividade. O fato de o delegado ter considerado que a UnB tem sido leniente e tolerante com ilícitos, aliás, foi vigorosamente rebatido pela Reitora da instituição, como divulgado pela imprensa.

Por que a Reitoria não provocou um diálogo com os estudantes sobre o tema apologia às drogas antes de tomar uma medida que fere a livre expressão dos estudantes?

Como também já disse, não houve seleção de conteúdo para a operação de conservação. Aliás, a maior reclamação que chegou à Administração Superior da UnB não se referia à suposta apologia às drogas, mas sim a inscrições de conteúdo contestatório ao governo atual e medidas que ele vem adotando. De todo modo, consideramos inapropriado consultar sobre conteúdo a serem apagados ou mantidos. Se estamos falando de livre expressão, precisamos consultar, sim, sobre locais e formas de manifestação, não sobre os conteúdos das mensagens. O debate em si precisa ser livre, principalmente no ambiente universitário.

Os dirigentes do DCE reclamam que a reitora não encontra espaço na sua agenda para dialogar com os estudantes. Por quê?

Deve haver algum mal-entendido aí. A Administração Superior já disponibilizou a agenda para o encontro e membros da direção recém-eleita do DCE pediram apenas alguns dias para definirem a divisão de responsabilidades entre eles, o que consideramos absolutamente compreensível. No último contato que tivemos, na sessão solene do Conselho Universitário desta quarta-feira, que comemorou os 55 anos da UnB, ficou pré-agendada uma reunião no início da semana que entra, provavelmente na terça (dia 2) ou na quarta-feira (dia 3 de maio).

Segundo o DCE, a UnB sofreu um corte em seu orçamento de 47% e questionou a prioridade da Reitoria em gastos com a pintura da universidade?

Os serviços de conservação das dependências da Universidade são objeto de contratação, nos moldes de terceirização. Deixar de realizar uma atividade já contratada não significa qualquer economia para a UnB. Implica, sim, em irresponsabilidade com os recursos públicos.