LOS ANGELES — ‘Oscarologistas” caíram das poltronas na noite de domingo após “Estrelas além do tempo”, a partir de amanhã nos cinemas brasileiros, desbancar o favorito “Moonlight: sob a luz do luar” e vencer a principal categoria, a de melhor elenco, na tradicional premiação do Sindicato dos Atores da indústria audiovisual americana (SAG). Como atores e atrizes formam o maior quinhão dos eleitores na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, a briga pelo Oscar de melhor filme na festa do próximo dia 26 embolou de vez.

— Cresci em uma cidade próxima de onde os fatos narrados em “Estrelas…” aconteceram, e ninguém me falou dessas mulheres. Mais de meio século se passou, e a aceitação, pela sociedade americana, de negros como eu, na área do entretenimento, ou na dos esportes, é fato — diz Pharrell, que segue: — Não há, no entanto, celebração de pessoas de cor, especialmente mulheres, que tiveram papel relevante na área científica ou acadêmica. Resolvi produzir esse filme porque precisamos, agora mais do que nunca, divulgar esses exemplos reais para as novas gerações.

INSPIRADO EM LIVRO

Pois Katherine G. Johnson (Taraji), Dorothy Vaughan (Octavia) e Mary Jackson (Janelle) são retratadas pelo diretor nova-iorquino Theodore Melfi como figuras absolutamente exemplares. À época, a pressão era imensa na Nasa depois de os soviéticos terem transportado a cadela Laika no Sputnik 2, em 1957, e de Yuri Gagarin (1934-1968) ter atestado, quatro anos depois, que “a Terra é azul”. Pois as três mulheres cuidaram de suas famílias, enfrentaram bravamente a segregação racial sulista e se revelaram fundamentais para que o primeiro astronauta americano, um homem caucasiano, entrasse em órbita da Terra, feito intensamente celebrado por Washington em 1962.

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O gênio do cálculo Katherine, a pioneira na computação Dorothy e a engenheira Mary tiveram suas histórias finalmente recuperadas no livro “Hidden figures”, de Margot Lee Shetterly, inspiração para o filme e lançado no ano passado. Entre os coadjuvantes mais interessantes encontrados pela autora e transportados para a tela, os destaques são Al Harrison (vivido pelo veterano Kevin Costner), chefe direto de Katherine e pragmático opositor da separação forçada entre brancos e negros na Nasa; o quase-vilão vivido pelo antipático engenheiro Paul Stafford (Jim Parsons), e o oficial do Exército Jim Johnson, papel de Mahershala Ali. Este último é o interesse amoroso de Katherine, viúva com três filhos para criar. Não por acaso, Ali, assim como Janelle Monáe, atua em “Moonlight”.

— É sintomático eles terem sido lançados ao mesmo tempo. São peças interessantes para se entender o racismo na sociedade americana. “Estrelas” me fez pensar especialmente nas meninas dos guetos negros da América tendo uma oportunidade que eu não tive, a de ver no cinema sua super-heroína na forma de uma engenheira brilhante, que lidou com o racismo e o sexismo e seguiu em frente. Se ela conseguiu se superar, eu e você, menina, também podemos — diz Janelle.